Hoje as melhores lembranças estão me causando náuseas. Talvez seja o gotejar da pingueira da torneira, da cozinha do apartamento do vigésimo andar, que esteja me tirando a paciência, que roube minha paz. Inventei tantas desculpas para não levantar da cama, não queria aquele café da manhã depressivo, onde até as paredes estavam tristes e o pão com manteiga, de que eu tanto gostava, tinha gosto de serragem. Nem o sol deu o ar da graça, era um daqueles dias nublados e melancólicos. Eu me sentia parte daquele céu, sentia a tristeza em cada nuvem, que choravam gotas densas por meus olhos.
Hoje apenas queria entender duas coisas, a primeira é por quê diabos não consertam essa torneira? O vizinho do vigésimo andar parecia cuidadoso, porém deixar essa torneira pingar por dias estava me causando certo transtorno, pensei em ir lá e eu mesmo consertar, mas não fui. A segunda coisa que eu queria entender, era o motivo de sua insistência em partir, de querer tudo no mesmo lugar, mesmo sabendo que o tempo bagunça as coisas. Eu cansava de te explicar que o caminho não era esse, eu cansava de insistir para ficar, sem sucesso sempre, você nunca me ouviu. Por que você nunca me ouviu?
Certos momentos da vida tudo se embaraça, afinal ninguém conta com as quedas, mesmo que toda estrada tenha desvios e buracos, eu não estava atento o suficiente, eu não queria estar. Toda vez que te encontrava nada mais importava, do primeiro minuto que te tinha até o minuto de se despedir. Nesse intervalo o tempo parava, as dividas atrasadas não me incomodavam, a dor de cabeça ia embora, estava em completa paz, nem mesmo o insuportável o som da pingueira da torneira da cozinha do apartamento do vigésimo andar, tirava meu sorriso.
Desde do inicio tudo parecia errado, mas ainda assim apostei alto. Um erro que cometi sabendo, eu não deveria ter condicionado minha felicidade unicamente a você. E agora, me pergunto o que fazer? Se entre uma garrafa de vodka e um maço de cigarro, eu ainda visualizo seu rosto, sua voz se mistura ao do som da goteira, e ela não me incomoda mais.
A saudade ainda me degenera, esse processo angustiante me faz ter medo de sair de casa e enfrentar a estrada novamente. Queria eu não sair tão ferido sempre, buscar uma solução imediata, pois a vida é tão curta para se perder saboreando o amargo dos dias tristes.
Nada me faria mais feliz do que ter você de volta. Por semanas olhei pela janela algum sinal seu, mas o inverno tinha chegado e partido, e nada mudado. O vizinho do vigésimo andar tinha consertado sua torneira, mas eu ainda estava em guerra comigo mesmo.
Perder você foi como me perder também, parte do que gostava em mim, era justamente a parte que você era responsável. Gostaria de me sentir mais seguro, e não precisar de tantos cadeados.
Depois de tudo percebo que nem dava para ouvir a pingueira da pia do vizinho do vigésimo andar, percebo que ser forte necessitaria de mim mais coragem. Coragem em admitir que estou sendo fraco, em fazer algo a respeito. Era preciso coragem para subir 10 andares e pedir para consertarem a pia, e eu não tive. Me sinto culpado por tudo, e esse remorso criou uma ferida incurável.
Eu diria tantas coisas se ainda pudesse, te levaria a tantos lugares se ainda desse. Garantiria todas as promessas se você ainda quisesse, e continuaria te amando como ainda amo. Mas, sinto que tudo ficou longe, como o próximo verão, como o vigésimo andar que não subi para consertar aquela pia que tanto me incomodou.

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